O SÁBIO ANALFABETO
 

José da Silva era um homem do sertão nordestino. Vivia em uma casinha de pau a pique e seu sustento vinha da terra árida, da qual, muitas vezes, não se tirava nada nem para comer ou para beber. Sua trajetória foi de uma vida de privações; luxo, ele nem sabia o que significava. Aliás, José era analfabeto. Não tinha eletricidade em casa, logo, não tinha TV. Internet, então, jamais ouviu falar.

 

Porém, José tinha muitos “causos” para contar. Era o “causo” da cobra que ele matou e comeu; do cachorro do mato que virou seu melhor amigo; da ventania que fez círculo no chão e levantou sua cerca no ar; da sua habilidade para saber se, em um determinado período do ano, choveria ou seria um tempo de seca, o qual prejudicaria as plantações. Ele dizia que olhava para o céu e, pela cor e pelo barulho do vento, ele sabia se choveria ou não; e se orgulhava ao dizer que sempre acertava. Mas o que ele mais gostava de falar era sobre seu grande amor: Teresa Garcia.

 

Os pais de Teresa, Severino Garcia e Maria da Silva Garcia, moravam ao lado dos pais de José, João da Silva e Clementina de Jesus da Silva. Os dois casais tiveram filhos únicos. Logo, Teresa e José tornaram-se amigos inseparáveis. Escola, eles nunca frequentaram. O conhecimento foi adquirido por meio da labuta do dia a dia e nas idas à pequena cidade vizinha para tentar vender a produção de legumes e verduras produzidos no quintal de suas casas. O jegue, apelidado de pirulito, pois era muito magrinho, carregava os alimentos acomodados em sacos de arroz e, em seu lombo, Teresa e José, que tagarelavam a viagem inteira.

 

Os pais se revezavam, pois, para chegar à cidade, tinham que andar muitos quilômetros e era muito cansativo. O dinheiro que ganhavam era dividido entre os casais, que combinaram de não gastar um centavo sequer, pois queriam dar um futuro melhor para os filhos. Cada qual, em sua casa, possuía uma pequena lata, já toda enferrujada pelo tempo, na qual guardavam o pouco que ganhavam, pois nem sempre o tempo ajudava e eles perdiam tudo o que haviam plantado. Nessas épocas difíceis, os pais de ambos passaram muita fome para deixar o pouco que tinha de alimento aos filhos.

 

A tristeza só chegava nesse período de seca, quando não tinham mais o que comer; a água era pouca e eles, isolados. A verdade é que, com o passar dos anos, os vizinhos mais próximos abandonaram suas casas em busca de algo melhor e os dois casais e seus filhos eram os únicos habitantes daquele distante local esquecido pelo mundo. E mesmo diante de tantas dificuldades, os pais de José e Teresa nunca desistiram de sonhar que um dia tudo seria melhor. E assim viviam, apesar das privações, com muita alegria e esperança em seus corações!

 

José sempre foi um menino esperto e que adorava escutar a conversa dos mais velhos quando ia à cidade. Ele, sorrateiramente, fugia da vista dos pais de Teresa e da própria Teresa, só para espreitar a conversa de um grupo de homens que sempre estavam reunidos em um bar. Ele nunca tentou tal proeza quando eram seus pais que estavam na cidade, com medo de levar uma surra. O garoto era sapeca e esperto. E foi em uma dessas suas escapulidas que ouviu o nome da pequena Teresa na roda de conversa daqueles homens.

 

Ele chegou bem perto, como quem não quer nada, e ficou ali escutando. Um dos homens do grupo, um senhor de barba longa e rosto marcado pelas rugas e cansaço e quase sem nenhum dos dentes na boca, contava que ficou com o coração partido ao ouvir a menina, Teresa Garcia, pedir para a mãe uma boneca que viu na loja. A mãe explicava que não poderia comprá-la, pois aquele dinheiro faria falta no futuro. Ele, com a voz embargada, disse que os olhos da menina encheram-se de lágrimas, e a mãe, ao perceber, abraçou-a e prometeu que, quando ela completasse 15 anos, compraria a boneca. O sorriso voltou ao rosto da menina, contava o velho barbudo.

 

José, sem qualquer cerimônia, em seus nove anos, perguntou ao senhor o que era uma boneca. Eles conheciam José e um dos homens o pegou pelo braço, o levou até a loja e mostrou a boneca. Era uma boneca com os cabelos loiros e longos. José ficou encantado. E naquela cabecinha criativa, pensava como poderia dar essa alegria a sua melhor amiga. Ficou olhando a vitrine por alguns minutos, foi quando ouviu um grito: Josééééée. Era a mãe de Teresa que estava aflita procurando o danado do garoto. Teresa veio correndo ao encontro dele sorrindo. Os dois ficaram olhando a vitrine e ele disse para Teresa que iria dar-lhe uma boneca. Ela sorria e o empurrava dizendo que ele não ia dar nada. Mas José havia descoberto um jeito de dar uma boneca à Teresa e estava radiante!

 

E lá foram os quatro, de volta, às suas casas rindo, conversando, felizes da vida!

No dia seguinte, José contou sua ideia para a mãe de Teresa e pediu sua ajuda, pois ela também tinha visto a boneca na vitrine. Com algumas espigas de milho e muita criatividade, a boneca tomou forma. José formou o rosto com os grãos de milho, o cabelo loiro fez com os fios da espiga, e a casca serviu de roupa. Foram usadas três espigas, que, cortadas, formaram os braços e pernas, amarrados com palha. Os pais de José distraíam a menina, enquanto ele montava a boneca com a ajuda da mãe de Teresa. Foram dois dias de muita expectativa. José mal conseguia dormir, pois estava ansioso para entregar seu presente à Teresa.

 

Chegada a hora, Teresa estava sentada na porta de sua casa brincando com um gravetinho. Quando viu José com as mãos para trás, ela correu em sua direção e perguntou o que ele estava escondendo. Ele desviou-se dela e ficou brincando assim por alguns minutos, quando pediu à Teresa que fechasse os olhos. Ela fechou e ele colocou a boneca de espiga de milho em suas mãos. Quando Teresa abriu os olhos, um enorme sorriso iluminou seu rostinho. Ela pulava, gritava, abraçava José, olhava a boneca e a abraçava. Ela estava muito, muito feliz com o presente de José. Chamou os pais e mostrou a boneca, seus olhinhos brilhavam como estrelas no céu em noites de verão.

 

A mãe de Teresa contou à filha que ajudou a fazê-la. Ela deu um abraço bem forte na mãe, o pai chegou e os três ficaram abraçados durante alguns minutos. Uma linda cena na árida paisagem nordestina. Teresa se desvencilhou dos braços dos pais e ficou girando com a boneca. Seu vestido surrado e seus longos cabelos ao vento eram a imagem mais bonita que José havia visto. O coração dele batia em disparada. Ele estava encantado!

 

Os dois amigos não se desgrudavam. Foram dias e mais dias repletos de muita emoção e descontração. Teresa Garcia adorava as bonecas de espiga de milho que José fazia e lhe dava de presente. Ela tinha uma coleção! Inesquecíveis eram as tardes ao redor do cajueiro, que tinha uma sombra de cobrir o mundo, como dizia José. Eles passavam as tardes brincando de pegar formiga, fazer buraco na terra, pega-pega, era uma grande alegria! Distante da modernidade do mundo e do consumismo exagerado, os dois eram felizes com o pouco que tinham.

 

Os pais de Teresa e de José morreram quase que na mesma época e esqueceram de contar aos filhos sobre o dinheiro guardado na latinha. Os dois, já com 16 anos e sem ter mais ninguém no mundo, resolveram morar juntos na casa de Teresa. E, assim, começou uma linda história de amor e dedicação.

 

Eles acordavam cedo todos os dias para não perderem o nascer do sol e sentavam juntinhos no fundo da casinha deles, para dar adeus ao pôr do sol. Nas tardes quentes, do árido sertão, eles olhavam a paisagem infinita refletida pelos raios do sol, que batiam no chão e formavam uma espécie de parede transparente. Eles tinham a esperança de ver alguém caminhando em busca de abrigo. Era a chance de fazer nova amizade e não se sentirem tão abandonados. Mas nunca ninguém cruzou a solitária paisagem...

 

Os anos passaram e cada dia era uma grande luta para ambos. A promessa feita pela mãe de Teresa não foi cumprida; ao completar quinze anos, ela não ganhou sua boneca. E essa data passou despercebida por ambos, que já não lembravam mais da imagem na vitrine. Aos 30 anos de idade, seus rostos possuíam marcas provocadas pelo sol forte que tomavam todos os dias ao cuidarem da plantação e quando tinham que andar quilômetros e mais quilômetros, em busca de água nem sempre tão limpa, como deveria ser. Com o passar dos anos, eles desistiram de vender o pouco que produziam, pois o jegue já estava velho e muito cansado. Resolveram produzir apenas para seu sustento, e nunca mais foram à pequena cidade vizinha.

 

Quem era o presidente do Brasil? Eles não sabiam. Se a economia mundial afetava a vida deles? Era outra questão que eles nem sequer faziam ideia. Sobre a vida e sobre o mundo, os dois tinham o mesmo pensamento. Diziam que não importava nada na vida se não tivéssemos alguém para segurar a mão e poder olhar nos olhos e sentir o aconchego do amor. José e Teresa costumavam dizer que tinham, naquele pedacinho de terra, os bens mais preciosos da vida: o amor e a natureza, ainda que árida.

 

Quanto ao dinheiro guardado na latinha, eles nunca o encontraram, pois estava escondido em um buraco feito no chão, embaixo da mesa, coberto por uma espécie de tampa feita de pau a pique, da mesma cor do chão. Porém, o dinheiro não tinha qualquer valor para aquele lindo casal, que regou sua vida apenas com amor e dedicação!

 

Os dois viveram muitos anos juntos e, apesar de sonharem com a casa cheia de crianças, nunca tiveram filhos. Morreram abraçados sob um lindo pôr de sol. Era como se aquele lugar, que eles amavam tanto, estivesse abraçando-lhes em sua despedida da Vida.

Copyright © 2011 - Todos os Direitos Reservados à Marcela Re Ribeiro - Reprodução Proibida

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